Memória: direito ao passado.

Autor: Marcus Vinicius Santana Lima

Assim que nascemos ganhamos o direito da recordação. Aprendemos desde cedo a elaborar um mundo que nos é ofertado incessante e intensamente. A variedade dos episódios cotidianos vai se acomodando na nossa compreensão das relações sociais e constroem, por nossa capacidade de arquivar imagens e palavras, lembranças daquilo que parece mais importante, o que se eleva à condição do que desejamos preservar.

Este trabalho, feito por todos, é determinante para a elaboração de referências e sentidos ao longo da vida. No plano pessoal, recordamos com afeto de brincadeiras, primeiros namoros, festas familiares, amizades e paisagens inesquecíveis. Contudo, somos levados a recordar também de certos sofrimentos, decepções, planos que não se realizaram, dores jamais esquecidas, traumas e tantas outras angústias. Parece condição da existência humana essa ambiguidade das lembranças. Registramos, mesmo inconscientemente, o que nos agrada e o que nos deprime.

Na vida social, essas lembranças sofrem processos variados de absorção e instrumentalização. Integram calendários nacionais, estaduais, municipais, criam condições para celebrações de alguma figura ou grupo – como a Festa dos Vaqueiros de Curaçá –, designam feriados civis e religiosos, privilegiando determinadas culturas ou cultos. Todavia, é preciso registrar que toda lembrança escolhida para compor a memória coletiva de um lugar é acompanhada por práticas de esquecimento, ou seja, por aquilo que certa esfera do poder ou alguma classe social deseja relegar ao silêncio.
Nesse sentido, toda memória, além de afetiva, é política, porque se viabiliza por meio de um processo de seleção do que deve ser recordado e do que deve permanecer no breu do passado. É, pois, um trabalho de configuração da realidade social uma vez que nos obriga a enquadrar certos aspectos da sociedade conforme a vontade de quem opera tal seleção co-memorativa. Os acervos, aliás, têm um difícil trabalho de pluralizar a memória coletiva de uma determinada cidade ou região, abrigando em seus arquivos boa diversidade de trajetórias de vida e experiências coletivas vivenciadas em épocas anteriores. Esses espaços que buscam a preservação de um patrimônio cultural, entendido aqui como o conjunto de narrativas, coisas e formas de expressão consideradas de valor imensurável por uma comunidade – possuem, portanto, a árdua responsabilidade de eleger qual passado as sociedades terão direito de acessar e apreender. Marcus vinicius santana lima é professor, pesquisador e poeta. trabalha na universidade federal do vale do são francisco, campus serra da capivara.