Autor: Pedro Levorin
Cidades se apresentam como complexos aglomerados humanos em que, a partir delas, é possível procurar por suas histórias que se criam através do encontro e atravessamento de espaços, coisas, pessoas. Os tempos de uma cidade coexistem através da memória movida por indivíduos mas também por meio do que é construído. Seja uma pedra do calçamento ou o baixo nível do Rio São Francisco em relação há outros tempos, as interferências e elaborações que um espaço apresenta podem ser notadas, e mesmo que não tenha voz de maneira literal, através de sua imagem e materialidade falam objetivamente sobre os processos históricos; eras políticas, ciclos econômicos, projetos de progresso, técnicas particulares, inclinações estéticas etc.
No sentido mais pragmático de uma cidade, as edificações antigas trazem aos dias de hoje informações de tradições construtivas, visuais, materiais; nos explicam escolhas e trazem informações técnicas, ampliando as a percepção sobre as dimensões culturais de um tipo de fazer dentro de ciclos temporais. Outro dado imprescindível para a compreensão das direções construtivas de uma localidade é sua situação em termos geográficos e regionais. A partir destas sacações, movimentos sobre o território são imprescindíveis considerar: o abastecimento e escoamento de materiais; o trânsito de pessoas, suas ideias e referências; a lida com proximidades e distâncias de aglomerados urbanos.
O município de Curaçá, nesse sentido, apresenta uma circunstância ímpar dentre a região em que se insere. A cidade homônima tem suas origens num passado remoto, ainda no século XVI. Está em uma região que recebeu a violenta penetração de colonizadores portugueses em direção aos interiores do então Brasil colonial e que, a partir de então, possui uma vasta história de localidades e aglomerações humanas que despontaram como cidades e pequenos povoados. Este artigo, porém, não se propõe a debruçar sobre história da região, mas nota evidências das transformações políticas, econômicas e sociais dos últimos 20 anos no Brasil e região, perceptíveis através da arquitetura e de aspectos urbanos do município. As reflexões trazidas aqui são fruto do Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “Incorporações: imagem e materialidade de arquiteturas populares em sertões da Bahia”, defendido em 2020, e que possui construções de pensamento que se desdobram e desejam desenvolvimento. Uma virtude deste punhado de ideias não é legislar sobre a atividade da construção civil contemporânea, mas entendê-la como fenômeno intenso e pulverizado em interiores do Estado da Bahia. Desse modo, discutiremos o papel fundamental das rodovias federais e estaduais para a alteração da paisagem, junto de outros pilares importantes alçados nos dois primeiros mandatos do presidente Luís Inácio Lula da Silva; a política de renda através do programa Bolsa Família, a ampliação de crédito à população pobre através da Caixa Econômica Federal vinculada ao desenvolvimento no setor industrial da construção civil, e seus desdobramentos em relação ao crescimento econômico nacional (SINGER, 2012) “Incorporações” trata de um tipo de arquitetura muito comum em cidades brasileiras, principalmente na região nordeste do país; casas térreas com fachadas de platibandas. A tese procurou observar o uso de módulos industrializados de porcelanato na parte frontal das casas como um processo plástico e compositivo de pedreiros e construtores, análogo à ornamentação com bordas e motivos das mais variadas formas e influências em alto relevo. Tais exemplos de arquitetura são ainda observados em diversas cidades mesmo que em pouca quantidade, fato cultural vastamente documentado pela fotógrafa soteropolitana Anna Mariani (2010) e estudado pela professora pernambucana Maria de Betânia Brendle (1995). A intencionalidade que historicamente há sobre fachada de platibanda é algo que rege sua composição no presente, que permanece. As marcas de um trabalho manual não se encontram mais no procedimento de dar forma à matéria que vai compor a fachada. O trabalho do pedreiro está, então, no jeito com que esses materiais são introduzidos às fachadas. A ideia de destaque trazida por um pedreiro João Ferreira (nome fictício, a pedido do entrevistado) ilustra este pensamento, em que a necessidade de produzir algo diferente ainda é evocada pela superfície. Isso é notado pela ação que produz esses destaques, que escolhe e diagrama as peças modulares. É quando se choca o caráter homogeneizante dos materiais industrializados, quando se percebe que o trabalho de composição sobre as fachadas pode ser reconhecido. Portanto, o novo trabalho executado passa a ser visto na medida em que os pedreiros se apropriam desses materiais e imagens. A planificação do ornamento em imagem traduz a planificação do trabalho manual em indústria, esvaziando-o em parte de uma expressividade artesanal marcada pelas fachadas antigas.