Autor: Walter Araújo Costa
Já se vão, por aí, mais de quatro décadas. Em 15.03.1980 um grupo de idealistas de Curaçá fundou o Jornal Asa Branca, uma consequência natural dos ventos soprados pela lei de anistia de 1979 que, dentre outras coisas, afastava as restrições no que tange à liberdade de expressão.
Estávamos timidamente iluminados pelas luzes da chamada redemocratização, ainda na renhida luta dos brasileiros pelo fim dos governos militares (1964-1985).
Por conseguinte, a abertura “lenta, gradual e segura” idealizada pelo general-presidente Ernesto Geisel estava em andamento, mas não era tudo concernentemente às liberdades civis.
Tempo politicamente difícil. Era perigoso contestar, discordar, sugerir, protestar. O poderoso Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão temido da ditadura, infiltrava-se em tudo, até em reuniões da oposição e em inocentes aglomerações estudantis.
O núcleo desses idealistas de Curaçá era formado por Omar Dias Torres (Babá) e Salvador Lopes Gonsalves e outros mais que gravitavam ao redor, dentre eles Antonieta Galdieri e Coelhão, todos ávidos para mudar o estado de coisas imperante, principalmente emais imediato, em Curaçá. Como não havia espaço legal, tampouco estrutura para a oposição abrigar-se em partidos políticos, a turma do Jornal Asa Branca engendrou uma brecha para se fazer presente em todo o território do município.
O Jornal Asa Branca se imiscuiu na zona rural, em fazendas, sítios, povoados, distritos. Aquela rapaziada inteligente maquinou, forjou e lançou o Jornal Asa Branca no seio de uma sociedade tradicionalmente apática e acostumada a aceitar tudo e nada contestar. O Jornal Asa Branca era rudimentar, mimeografado, distribuído mais entre admiradores do que propriamente leitores. Estes eram poucos, pouquíssimos.
O que contava não era a quantidade de exemplares, nem a periodicidade do jornal, mas a disseminação das ideias que defendia. Eram ideias incomuns, por alguns até rotuladas de subversivas, porque contrariavam o pensamento oficial. Estávamos ainda num período de pálida, mas vigilante censura à imprensa. Nem tudo podia ser dito, principalmente quando o que se dizia terminava ferindo interesses do status que arranhando o poder, tanto na esfera municipal quanto nas estadual e federal. “Fazer jornal é coisa de vagabundo” disse, em inflamado discurso na Sociedade dos Vaqueiros, um dos opositores do Jornal Asa Branca. Era assim o clima enfrentado por esses idealistas e persistentes curaçaenses. As dificuldades eram muitas, visíveis, difíceis de contornar. Não tinha computador, as linhas telefônicas funcionavam precariamente, não existia internet e as informações eram colhidas diretamente pelos editores. E aí nascia a credibilidade do jornal, porque as fontes e informações eram checadas diretamente por seus responsáveis. A linha editorial cingia-se mais a ideias e menos a notícias.
A filosofia era conscientizar, contradizer, orientar, arejar as mentes, desenferrujar os hábitos políticos. Assim como o escritor, cantor e intelectual Chico Buarque de Holanda cutucava militares dizendo “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, o pessoal do Jornal Asa Branca cutucava o grupo político de Aristóteles de Oliveira Loureiro (Tote), incluído aí o líder inconteste da época Theodomiro Mendes da Silva, que tinha pavio curto e chegou a protagonizar alguns incidentes com o Jornal. De todos os Artigos que submeti à apreciação do Asa Branca, somente um intitulado Lei de Segurança Nacional não foi publicado.
O jornal entendeu que não devia publicar aquela espécie de estocada no principal mecanismo de repressão imposto pela ditadura. Eu dizia naquele artigo que a LSN era um perigo iminente sobre as cabeças dos brasileiros, portanto, deveria ser revogada. Instrumento jurídico fortíssimo, a história registra que até recentemente o Supremo Tribunal Federal ainda discutia os resquícios daquele entulho autoritário da ditadura.
O fato é que em 02/12/1981 eu recebia de volta o retro aludido artigo, acompanhado de uma polida carta de Omar Dias Torres (Babá), devolvendo-o e esclarecendo: “Dentre todos os Artigos que você nos enviou, este foi o único não publicado”. Babá é admirável, conspícuo, inteligente correto. Ele e Salvador Lopes Gonsalves, de iguais qualidades, comandavam o Asa Branca com responsabilidade e cautela. Naquele tempo Babá morava na Quadra D, do Bairro Castelo Branco, em Juazeiro. Lá era um dos tentáculos do forno de ideias do Asa Branca. O Jornal Asa Branca foi o embrião que permitiu o esfacelamento das práticas políticas de então, piores que as de hoje, trouxe esperança para a população e abriu caminho para o surgimento de novas lideranças políticas no município. Se essas novas lideranças não corresponderam às expectativas dos curaçaenses, isto é outra história, mas destravaram o obscurantismo da época. É inegável. A história recente de Curaçá também foi construída com a participação do Jornal Asa Branca. Seus abnegados fundadores ostentavam um preparo impressionante para lidar com situações adversas, espírito de luta e, sobretudo, vontade de transformar estruturas e mentalidades, vontade essa arraigada em princípios incontrastáveis. O livro História da Imprensa de Curaçá, do jornalista Maurízio Roberto Bim Moreira (Curaçá, 2008) foi generoso ao registrar, com absoluto rigor científico, esse período de luta do Jornal Asa Branca.